Falando em Terapia

A dor silenciosa que os outros desprezam

As pessoas ao redor não enxergam o meu sofrimento psíquico.

Quando a gente padece de dor psíquica, geralmente as pessoas à nossa volta ou demoram para perceber e oferecer apoio, ou nem notam que o sofrimento é sério e, muitas vezes, bastante grave, o que adia a busca de socorro.

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A dor, qualquer que seja ela – física ou psíquica – é relativa à capacidade de cada um suportá-la. Ou seja, uma dor de dente, por exemplo, pode ser suportada até certo ponto, variando de pessoa para pessoa. Assim, o quanto de dor alguém está sentindo não pode ser mensurado por uma escala objetiva e universal. Estar doendo muito ou pouco depende da sensibilidade de cada pessoa àquela dor.

Em se tratando de padecimento psíquico, a questão torna-se mais complexa ainda. Podemos dizer que, tanto quanto ocorre com a dor física, a dor psíquica também é relativa à capacidade da pessoa àquele sofrimento. Por exemplo, a perda de um ente da família pode afetar mais a uns do que a outros membros daquela família. Mas esse é um dos poucos sofrimentos psíquicos que todo mundo compreende e respeita; é uma dor com endereço, podemos dizer. É a dor do luto. É o tipo de dor que muitos de nós já experimentamos ou ao menos intuímos como será quando passarmos por ela. Pode-se dizer que é uma dor conhecida e respeitada socialmente. E sabe-se – ou se espera – que ela passe ou arrefeça com o tempo.

A questão se complica quando se trata de dores cujo endereço as pessoas desconhecem. São as dores da alma que muitas vezes se manifestam nas formas do que se convencionou chamar de depressão, angústia, fobias, síndromes, etc. Ocorre que, dar esses nomes, ou quaisquer outros nomes, aos sofrimentos psíquicos não aponta para as causas singulares deles, uma das razões pelas quais a nossa empatia pela dor do outro fica prejudicada. Esse é o primeiro passo à indiferença social ou mesmo ao preconceito para com a dor psíquica.

Em que pese a popularização da Psicanálise, o padecimento relativo a questões psíquicas ainda não alcançou o respeito e o cuidado que merece na sociedade. É o tipo de sofrimento que, muitas vezes, só é levado a sério pelos outros quando a pessoa que sofre passa a prejudicar o convívio social, diminuindo a produção no trabalho, afetando as tarefas e papéis que exerce na família, reduzindo o desempenho escolar, ou atrapalhando com comportamentos inadequados os grupos sociais a que pertence. E aí vêm os conselhos: Larga o emprego, Arranja outro esposo (ou esposa), Tira umas férias, Toma um calmante; ou simplesmente, Para de sofrer! Como se fosse simples assim.

Esse tipo de conselho é dado de bom grado, com certeza, mas são conselhos inócuos, pois o mundo psíquico é bem complexo e as causas profundas das questões a ele relativas devem ser abordadas com acuidade, respeitando-se a singularidade de cada paciente no convívio da clínica psicanalítica, no trabalho paciente e artesanal da dupla paciente/analista. E se pudéssemos dizer que há um segredo para que o tratamento tenha início e possa prosseguir, é que o desejo pela análise tem de ser do paciente e não precisa ser de mais ninguém. As questões psicanalíticas são singulares, a demanda é singular e pede uma decisão igualmente singular. [A terapia para além da dor inicial >>]

E aqui fica uma dica: lá no fundo, nas causas germinais, o descuido, ou mesmo o desdém de muita gente a respeito das dores psíquicas alheias pode estar, muitas vezes, o receio de resvalar as suas próprias dores. Decidir pelo início de uma análise já é um ato de coragem, pois que, nesse momento, a gente decidiu se encarar. E, no fundo, no fundo, intuímos, acertadamente, que dentro de nós há luzes e sombras, onde coabitam seres amistosos e bichos medonhos. É que a viagem para dentro da gente no processo psicanalítico pode ser comparada alegoricamente com a aventura apresentada em A Divina Comédia, obra máxima do poeta italiano Dante Alighieri, em que o poeta visita o inferno, o purgatório e o paraíso. E no caso da análise, a viagem nem é necessariamente nessa ordem, nem linear e nem definitiva. Mas ajuda – e muito – a lidarmos com as nossas dores de viver. [O que o paciente ganha fazendo terapia? >>]

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Elizabeth Sbrana

José Teotonio

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