Falando em Terapia

A terapia para além da dor inicial

O paciente chega à clínica sofrendo, mas a análise vai além do alívio da dor psíquica.

Na maioria absoluta das vezes, o paciente chega até nós psicanalistas devido ao seu sofrimento psíquico com o qual não consegue lidar sozinho. O início do tratamento pode proporcionar algum conforto, mas somente o prosseguimento da análise poderá trazer resultados mais profundos e eficientes.

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É da condição do ser humano buscar alívio para suas dores, sejam elas físicas ou psíquicas. E quando o paciente chega à nossa clínica, muitas vezes seu sofrimento é atroz. Nesse caso, cabe a nós psicanalistas oferecer sustentação e escuta, a fim de atender sua queixa premente, para que se crie condições favoráveis ao processo de análise. A dor inicial é a queixa legítima que o paciente nos traz. A demanda são as questões mais profundas alinhavadas nessa dor inicial. E a dor psíquica não é mensurável objetivamente. [A dor silenciosa que os outros desprezam >>]

Por outro lado, cada paciente possui o seu modo de lidar com ela e seu grau de tolerância a ela, de modo que podemos dizer que cada dor é singular. E o mais importante são as relações que cada paciente estabelece com seu sofrimento: se o paralisa, se lhe dificulta trabalhar, se bloqueia suas reflexões, se o tolhe na tomada de decisões, etc. E a dor sentida de modo consideravelmente agudo, pode obstruir até mesmo o curso da análise, afinal uma pessoa tomada por uma dor muito forte tende a ficar aprisionada a ela e perder a capacidade de vislumbrar saídas para o seu sofrimento.

Porém, é importante ressaltar que o alívio do sofrimento não significa que a análise atingiu seu objetivo. Se por um lado, o acolhimento e a escuta do psicanalista, em determinados casos, podem contribuir com alguma melhora dos sintomas do paciente, somente o prosseguimento da análise pode atuar nas suas causas profundas. Se as causas não forem trabalhadas, a dor psíquica poderá retornar sob os mesmos ou novos sintomas.

Portanto, o alívio do sofrimento, que pode ou não ocorrer já no início da análise, será sempre bem-vindo, na medida em que atende à queixa inicial do paciente e pode melhor predispô-lo à própria análise. Mas o tratamento analítico não se resume a esse alívio. Numa analogia com a medicina, seria como uma pessoa que sofre de dores de cabeça constantes contentar-se com analgésicos em vez de tratar as causas da sua cefaleia. Num processo de análise, para que ele seja efetivo, é preciso, portanto, ir para além da dor que levou o paciente ao psicanalista. E esse processo requer cuidado, sustentação e acuidade por parte do psicanalista, e paciência e perseverança do paciente.

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Elizabeth Sbrana

José Teotonio

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